Sábado, Junho 13, 2026
20 C
Cidade de Maputo

Bairro 12 torna-se santuário da justiça privada

Duas mortes por linchamento, um por espancamento, e dois feridos graves reportados é o resultado de actos de “justiça pelas próprias mãos”, só no mês de Agosto, para desencorajar roubos de táxi-motas no Bairro 12, no distrito de Moatize, na província de Tete.

Depois de notarem o sumiço de um moto-taxista no Bairro 12, um grupo de pessoas moveu diligências para clarificar o caso sem envolver a polícia. Durante o exercício localizaram em momentos separados os quatro supostos envolvidos, incluindo uma mulher.

Após recuperar a mota em Cancope, em arredores do Município da Cidade Moatize, vandalizaram a casa da namorada de Leonel Saize, com quem tinha um filho. O grupo queimou celeiro de milho, matou cabrito, e destruíram vários bens da família da jovem. E de seguida procuram por Leonel Saize em casa do seu irmão, onde ele morava, após irem a machamba da madrasta.

Apunhalados de armas brancas como catanas e facas, pediram a Nelito Saize e a sua esposa que dissesse onde é que estava o seu irmão, uma vez que era noite e ainda não havia voltado, supondo que ele havia escondido o mais novo em algum lugar. Com efeito vandalizaram a casa como forma de pressionar o casal a entregar o irmão. Os actos de vandalismo duraram a noite inteira.

“Até às 4:00 horas já estava tudo estragado na minha casa, incluindo as chapas. Houve um momento em que saíram. Foi nessa oportunidade que disse a minha esposa para fugir com as crianças, e eu sai depois. Num dos momentos da discussão, lançaram faca contra mim, mas não fui atingido”, relatou Nelito Saize.

A faca foi lançada em resposta a proposta de Nelito Saize querer entregar o irmão para a polícia, um pronunciamento que atiçou a fúria do grupo que desejava a cabeça do irmão.

Bairro 12, em Moatize

“Com o contacto do miúdo conseguiram localizar-lhe na zona de Katete, antes de mim. Porque primeiro fui ao serviço pedir dispensa para a seguir procurar-lhe para entregar a polícia. Enquanto estava no serviço, minha irmã ligou para mim a dizer que estava atrasado, porque o grupo já havia encontrado o Leonel”, contou.

Localizado, o grupo passeou com o jovem parando em alguns lugares e mandaram-lhe levantar as mão em jeito de despedida. E após chegarem ao mercado, apresentaram-lhe a população e disseram que “se uma pessoa depois de morrer volta a viver, ele voltará vivo, caso contrário era a última vez que lhe viam”, dando a entender a todos que ele havia assassinado o moto-taxista que sumira.

Leonel Saize foi, depois, levado para o local onde o moto-taxista sumido se achava morto, e foi linchado. Alertada a PRM, não conseguiu chegar a tempo de evitar o acto criminoso.

A PRM conseguiu salvar os outros três integrantes da suposta quadrilha de roubo de motorizadas, durante o mediatizado tumulto de 12 de Agosto, último. Levados ao hospital, um não resistiu ao nível de queimaduras e morreu, e os outros dois indivíduos depois de recuperarem do espancamento foram presos.

Entretanto, apesar ter chegado tarde ao linchamento de Leonel Saize, a PRM não prendeu os autores do crime, segundo o seu irmão.

“Não sei aonde a polícia encontrou as seis pessoas que diz ter prendido como promotores da manifestação. Conhecemos os indivíduos que lincharam o nosso irmão e que promoveram a manifestação. Estiveram nas nossas casas. E nenhum deles está na cadeia”, revelou.

Face ao acontecimento, os moto-taxistas promoveram uma manifestação em solidariedade ao taxista morto em pleno exercício das suas funções, e proibiram que o corpo de Leonel Saize fosse enterrado no cemitério municipal. Por conta disso, o seu enterro foi feito as escondidas, e a polícia depois mostrou a família Saize, aonde jaziam os restos mortais do seu ente-querido.

O ponto mais alto da manifestação registou-se na noite do dia 12 de Agosto, quando paralisou o tráfego rodoviário da Estrada Nacional n.º 7  por cerca de quatro horas. Esta rodovia liga a cidade capital da província com a região do planalto de Angónia, e dá acesso à vizinha República do Malawi.

A Polícia acabou por pedir reforço e usando meios proporcionais a violência restabeleceu a tranquilidade. Foi nessa altura que prendeu seis manifestantes e apresentou como promotores do tumulto no dia 16 de Agosto, último, afirmando que foram presas em flagrante delito na manifestação.

O outro caso de justiça privada envolvendo o Bairro 12, em Moatize, deu-se na segunda semana após o tumulto popular. Os moto-taxistas aperceberam que depois das 17:00 horas não tinham clientes e por meio de diligências feitas descobriram que há ladrões infiltrando-se no seu meio e usando a actividade para realizar assaltos.

Numa das praças em Moatize, apareceu uma senhora reclamando que um moto-taxista roubou-lhe a carteira. E por meio do número de telemóvel que tinha localizaram o indivíduo, que tentando fugir da fúria dos moto-taxistas foi encontrado nas proximidades da cadeia feminina, em Chingodzi, no município da Cidade de Tete.

“Ele disse que foi mandado roubar e tinha um chefe. Pedimos para conhecer o patrão dele. Levou-nos ao Bairro 4, em Moatize, e não estava mostrar nada. E muita gente juntou-se e gritou que tínhamos de levar ele para o Bairro 12 para resolvermos o problema”, narrou Costa Sobrinho, um dos participantes do acto.

Quando chegaram ao Bairro 12, o suposto ladrão foi espancado até pensar-se que havia perdido os sentidos, mas depois soube-se que estava morto. A seguir, os participantes colocaram-se em fuga. Até que uma das pessoas disse que conhecia o dono da mota que estava com o malogrado.

Entretanto, não conseguiram encontrar o responsável pela motorizada. Ele fugiu para um lugar desconhecido, porque os familiares do suposto “ladrão-empregado” ao tomar conhecimento do sucedido decidiu procurar por ele para espancar-lhe.

Bairro 12 descrito como agressivo

A reacção radical ao assassinato do moto-taxista que culminou com os tumultos de 12 de Agosto, último, não é um comportamento novo nas artérias de Moatize. Já há um tempo, inclusive, um membro da polícia da Unidade da Intervenção Rápida (UIR) foi assassinado pela comunidade do Bairro 12.

O autor da carta aos munícipes de Moatize, Aparício José, com mais de 10 anos interagindo com moradores desta comunidade pelo facto de ser professor, em conversa com nossa equipa de reportagem, explicou que é um modo de ser e estar que deriva de um sentimento de traição e abandono.

“É um grupo da população que se sente traída pela forma como foram instalados os mega-projectos. Foram retiradas das suas zonas e esperavam ter algum benefício disso, mas depois da construção as mineradoras precisam de técnicos formados e como eles não tinham essa formação não tiveram espaço. Com isso ficaram desocupados e deixaram-se seduzir pelo crime organizado”, justificou.

Os jovens são usados para venda de combustível, baterias, pneus, e outros bens roubados nas empresas, sobretudo as mineradoras.

“Não são os próprios jovens que estão a vender. São empresários que não mostram a cara. Em todo bairro tem combustível nas casas. Sobrevivem desse negócio. Os poucos do seu meio que conseguiram entrar na Vale é que facilitam a saída de combustível como forma de solidarizar-se com os desempregados”, revelou.

Depois da tragédia de Caphiridzanje, em Novembro de 2016, o Governo mandou apertar o cerco contra a venda ilegal de combustível. Entretanto, residentes do Bairro 12 criaram outro esquema para continuar a vender.

“Para garantir que ninguém impeça a operacionalização do seu negócio ilegal adoptaram um estilo de vida agressivo. Só para ter ideia, há uma zona no Bairro 12 que os técnicos do FIGAP e EDM têm medo de entrar para actos de fiscalização. Porque são vistos como instituições governamentais, enquanto no pensamento deles o Governo é que trouxe a Vale para tirar-lhes das suas casas e ficarem sem nada. Não querem ver ninguém no seu bairro que lhes possa tirar o pão”, sustentou.

Acrescentou que os residentes do Bairro 12 não se importam de ir até as últimas consequências quando é para proteger os seus interesses.

“O linchamento e o espancamento dos autores do crime contra as pessoas que assassinaram o mota-taxista já era esperado. Todos sabem que basta eles unirem-se para procurar o infractor vão localizar e vai ser queimado ou espancado. É a comunidade tida como a mais agressiva de Moatize. Tem um modo de ser diferente. É preciso muita coragem para enfrentar-lhes”, comentou.

Para pôr fim a este comportamento, Aparício José propõe que os dirigentes governamentais avancem para um novo contrato social com esta comunidade, começando por adoptar programas que garantam as condições mínimas de sobrevivência para a população e a seguir colocar programas que possa ocupar-lhes gerando renda.

PRM promete reforçar capacidade interventiva

O porta-voz do Comando Provincial da PRM na província de Tete, Feliciano da Câmara, assegurou que para pôr fim a esta onda de justiça privada no Bairro 12, será reforçada a capacidade interventiva e operativa da Polícia, para além de fazer um trabalho de massificação de “Homem-Polícia” na via pública para resgatar a confiança das comunidades.

“A população precisa envolver-se para que estes esforços tenham efeito, denunciando todos actos criminais de que tenham conhecimento, e abster-se de motins e acções que culminam com o linchamento”, apelou o porta-voz da PRM em Tete.

Sobre o facto de a população acusar a polícia de fazer peças de expedientes fracas para em sede do tribunal o juiz não encontrar matéria e soltar as pessoas presas por denúncias populares, e por conta disso preferir linchar em detrimento de denunciar, o porta-voz da Polícia em Tete discordou.

“O nosso trabalho é investigação e diligências. Fazemos menção de todos factos que ocorreram e acções, e passos subsequentes estão sob alçada da justiça”- assegurou a fonte.

Em paralelo, o Conselho Municipal da Cidade de Moatize decidiu organizar os moto-taxistas em associações e colocar um coordenador com telemóvel em cada praça como forma de melhorar a monitoria e desencorajar que bandidos introduzam-se entre os taxistas para realizar actos criminais por meio da actividade.

Hot this week

EDM alcança mais de 14 mil novas ligações

Cerca de 14 mil novas ligações de energia eléctrica foram feitas este ano, na província de Tete, no âmbito da iniciativa presidencial “Energia para Todos”, que isenta a taxa de conexão para facilitar o acesso ao recurso.

Now Is the Time to Think About Your Small-Business Success

Find people with high expectations and a low tolerance...

Program Will Lend $10M to Detroit Minority Businesses

Find people with high expectations and a low tolerance...

Kansas City Has a Massive Array of Big National Companies

Find people with high expectations and a low tolerance...

Olimpic Athlete Reads Donald Trump’s Mean Tweets on Kimmel

Find people with high expectations and a low tolerance...

Topics

EDM alcança mais de 14 mil novas ligações

Cerca de 14 mil novas ligações de energia eléctrica foram feitas este ano, na província de Tete, no âmbito da iniciativa presidencial “Energia para Todos”, que isenta a taxa de conexão para facilitar o acesso ao recurso.

Now Is the Time to Think About Your Small-Business Success

Find people with high expectations and a low tolerance...

Program Will Lend $10M to Detroit Minority Businesses

Find people with high expectations and a low tolerance...

Kansas City Has a Massive Array of Big National Companies

Find people with high expectations and a low tolerance...

Olimpic Athlete Reads Donald Trump’s Mean Tweets on Kimmel

Find people with high expectations and a low tolerance...

The Definitive Guide To Marketing Your Business On Instagram

Find people with high expectations and a low tolerance...

How Mary Reagan Gave Glamour and Class to the Elites Society

Find people with high expectations and a low tolerance...

Entrepreneurial Advertising: The Future Of Marketing

Find people with high expectations and a low tolerance...
spot_img

Related Articles

Popular Categories

spot_imgspot_img